Algares do Cabeço dos Alecrineiros - Parte XIV

18 de Novembro de 2018

Ribeiro, José 1,2; Lopes, Samuel 1,4; Rodrigues, Paulo 1,2,3​​
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  1. Grupo de Espeleologia e Montanhismo, Rua Maria Veleda, 6, 7ª Esq, 2560-218, Amadora, Portugal  
  2. Núcleo dos Amigos das Lapas Grutas e Algares 
  3. Comissão Científica da Federação Portuguesa de Espeleologia, Estrada Calhariz de Benfica, 187,  1500-124 Lisboa
  4. Wind-CAM - Centro de Atividades de Montanha, Rua Eduardo Mondelane, lj44, 2835-116 Baixa da Banheira

Introdução

Muitas histórias e aventuras foram vividas para se tornar possível esta publicação. Foram várias atividades e um acumular de algares, uns já sabíamos da sua existência, outros foram aparecendo e outro foi crescendo...

Nesta publicação partilhamos as cavidades: Algar Queimado, Lapa do Tinder, Algar do Laçarote, Algar do Cofelo e Algar da Bajanca.

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Figura 1 - Localização dos algares tendo como referência o cruzamento existente na zona conhecida como "4 caminhos" (seta a vermelho).
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Adverte-se também e mais uma vez que, para sua proteção e da própria cavidade, o espeleólogo tem de ter obrigatoriamente formação!!!​​


Algar Queimado
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Foi em prospeção que o encontrámos. Aqui nesta zona houve um grande incêndio e aproveitámos um dia primaveril para “vasculhar", e demos com ele.​

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Figura 2 - Algar Queimado (Foto: Marco Matias - GEM)
​​​​​Descrição:​
O algar abre-se à superfície com uma boca de aproximadamente 2m de diâmetro. Segue-se um poço de 4m com a base coberta de calhaus de várias dimensões e muita argila. No sentido N existe um pequeno recanto com cerca de 2m, terminando logo aí. No sentido SO encontra-se um pequeno ressalto com algumas formações muito fósseis.

Após desobstrução afundou-se um pouco mais o algar dando a perceber o imenso caos de blocos e argila que ali se encontra mesmo na direção da boca do algar, observando-se por fenda que sustenta a zona de desobstrução. No sentido S vemos uma pequena fissura, mas sendo humanamente impossível de progressão.

Possivelmente este algar abre-se à superfície devido ao abatimento de uma chaminé que bloqueia qualquer passagem.

​Geologia:
A gruta aparenta ter um controlo estrutural por duas famílias de fraturas de direção grosseira NNE-SSW e E-W, ambas com inclinação subvertical. As camadas regionalmente têm direção aproximada NW-SE e inclinação suave para Sul.


A gruta desenvolve-se em calcários da formação de Calcários Bioclásticos do Codaçal, datada do Batoniano, do Jurássico Médio. 
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A gruta aparenta tratar-se  de um “vadose shaft” de acordo com a definição de Baron, 2003, sendo estas grutas com desenvolvimento essencialmente vertical que conduzem a água do epicarso para as zonas mais profundas do carso.

Presente:
Foi uma alegria quando o encontrámos, e a vontade foi tal que a malta mais nova iniciou nesse dia a desobstrução. “Estão com o sangue na guelra” e ainda bem, precisamos é de malta com vontade!

E tivemos de lá voltar pois a vontade era tanta que ninguém os aguentava... Mas ao se afundar a pequena abertura, depressa se percebeu que a parede que sustenta os calhaus começa a alargar e só com outros meios conseguiremos ali continuar a desobstruir. Haja vontade! Mas sente-se fresco a vir da zona que fica por debaixo do poço de entrada.

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Figura 3a – Planta do Algar Queimado ( veja aqui em PDF )
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Figura 3b – Perfil desdobrado do Algar Queimado  ( veja aqui em PDF )
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Figura 3c – Ficha de equipagem do Algar Queimado  ( veja aqui em PDF )
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Fotos do Algar Queimado por Marco Matias (GEM) e Rui Pina (GEM)


Lapa do Tinder
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Estava um dia de calor e na procura de outro algar com uma coordenada que nos levava a "nenhures", demos com um pequeno buraco. Analisámos e... pronto, vai de escavar...
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Descrição:
A lapa abre-se à superfície numa pequena abertura com cerca de 1,5x1,5m. Descendo 1m temos o chão de argila e calhaus. Virando a ESE encontramos uma abertura pela qual se desce em rampa de cascalheira cerca de 3m, terminando de seguida.

Já no sentido NO, e após desobstrução, temos um ressalto de 2m pelo qual acedemos ao interior da lapa. Aí o chão é de argila e blocos de várias dimensões e tem uma pequena inclinação no sentido NO. Junto à parede a SSO acede-se a um ressalto de 2m após desobstrução, terminando numa pequena sala, se assim lhe podemos chamar. A sua base é maioritariamente de argila, tendo no seu canto a SSO um pequeno gour.

No sentido NNO, verifica-se uma passagem muito estreita de cascalheira que liga mais à frente na continuação da lapa.

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Figura 4 - Lapa do Tinder (Foto: Sérgio Carvalho - GEM)
Novamente no inicio do interior da lapa, a progressão segue em "corredor" no sentido NO. Sempre com uma pequena inclinação, o chão encontra-se revestido maioritariamente de argila e alguns blocos. Encontrámos também alguns ossos, provavelmente de javali, indicando que a lapa já esteve aberta à superfície antes da desobstrução ou por outra entrada agora bloqueada.

O teto é irregular mas praticamente caminha-se sempre de pé. Aqui e ali encontramos algumas formas de reconstrução, parecendo já estarem numa fase onde recebem pouca ou nenhuma água. Nota-se a presença de muitas raízes no tecto, fruto da proximidade com a superficie. Verifica-se também a meio do "corredor" uma abertura estreita que liga ao tramo anteriormente descrito.

No final do "corredor" temos uma pequena bifurcação. No sentido NO, uma zona com chaminé com formas de reconstrução parentais. O chão é de diversos blocos e argila. No sentido ONO temos uma zona de tecto baixo e chão de argila. Encontramos um pequeno oco também com fundo de argila, terminando aí a lapa.

Geologia:
A lapa tem um desenvolvimento essencialmente horizontal tendo um controlo estrutural por duas fraturas, a que controla a maior parte da lapa, de atitude N60W/Vert, e outra que controla o tramo Oeste da lapa com atitude N40E/Vert. As camadas são subhorizontais.


A lapa desenvolve-se em calcários da formação de Calcários Mícriticos da Serra de Aire, datada do Batoniano, Jurássico Médio.
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Presente:
Que dia bem passado! Por vezes temos surpresas destas, pena que a lapa não tenha mais progressão. Não se pense que foi fácil, desde as desobstruções ao restante trabalho. Mas é assim, quem corre por gosto não cansa, ficando aqui mais esta cavidade cadastrada e partilhada.

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Figura 5a – Planta da Lapa do Tinder ( veja aqui em PDF )
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Figura 5b – Perfil desdobrado da Lapa do Tinder ( veja aqui em PDF )
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Fotos da Lapa do Tinder por Sérgio Carvalho (GEM)


Algar do Laçarote
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O Laçarote é um algar bem conhecido, especialmente porque é um abrigo de morcegos. E foi num fim de semana de muito trabalho que decidimos fazer ali uma visita, pois na topografia existente na revista Meandro nº2, verificava-se um ponto de interrogação num poço ali existente, que na altura não foi explorado por se estar em monotorização de morcegos e para se incomodar os bichos o menos possível.

Desde já avisamos todos aqueles que lerem esta publicação que o algar está interdito de Novembro a Março.

Foi então descido o poço e verificou-se uma fresta muito apertada de onde provinha corrente de ar. Obstáculo passado e surge nova fenda uns metros mais à frente. Ena pá, aquilo é que foi partir pedra!

Algumas saídas depois e tínhamos a continuação do algar aos nosso pés...

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Figura 6 - Algar do Laçarote (Foto: Sérgio Carvalho - GEM)
​Descrição:
Numa zona de densa vegetação, num campo de lapiás, uma cratera de boas dimensões é a entrada do algar com cerca de 6x4m. Existe também uma pequena abertura que liga ao algar com cerca de 20x20 cm mais a E.

Segue-se um poço de 18m onde se verifica nas paredes algumas figueiras e as próprias paredes muito fraturadas e com blocos quase soltos. Existem também vários patamares nas zonas junto ao tecto.

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Figura 7 - Vista da base do poço de entrada para cima
(Foto: Sérgio Carvalho - GEM)

A base na zona mais a N tem uma rampa de forte inclinação, sendo de cascalheira e diversos blocos. Ao cimo a O existe um pequeno patamar que por uma fenda liga à continuação do algar. Já no final desta rampa a E, temos um pequeno recanto por onde se acede a um oco de fundo de argila e de pequena dimensão.

Nesta sala de boas dimensões em que já se descreveu o lado mais a N, temos no centro um grande bloco que "divide" a sala ao meio, estando este coberto de musgo dando-lhe um aspeto "brutal".

Na zona mais a S inicia-se uma rampa também de forte inclinação mas agora no sentido ONO, sendo de pedras de diversos tamanhos. Quase no final da rampa alguns blocos de boas dimensões estão ali "entalados" a cerca de 3m do chão. Por cima destes acede-se a uma fenda que nos leva a novo poço de 21m.​
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Ultrapassando a fenda, o tecto volta a subir cerca de 7 a 8m. A cabeceira do poço é larga afunilando à medida que se desce. Encontramos algumas formas de reconstrução parietais, e logo no inicio da descida verifica-se uma pequena abertura a NNE que liga ao topo da rampa mais a O, da sala de entrada do algar. Já para ESE, existe uma fenda que percorre quase a totalidade do poço, estando esta completa com blocos de várias dimensões.​​
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Figura 8 - Vista da zona de blocos "entalados", de onde se acede ao poço de 21m (Foto: Sérgio Carvalho - GEM)
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A base é de argila e cascalheira, e ai uma "fenda" com cerca de 3m de alto mas muito estreita (agora mais larga após desobstrução) dá-nos acesso a um pequeno tramo no sentido ONO. De imediato encontramos no sentido de progressão à direita um pequeno oco com uma chaminé de 3m, mas em frente após poucos metros temos outro poço de 3m com muita pedra na base. Ultrapassando esse pequeno obstáculo em frente vemos uma pequena abertura de onde provém uma corrente de ar. Aí as paredes são forradas de calcite (agora mais larga após desobstrução), segue-se um pequeno desnível de 3 a 4m descendo-se com facilidade pois a zona não tem mais de 1,5m de largura e as paredes são muito concrecionadas.

​Segue-se um pequeno patamar de onde vislumbramos uma descontinuidade com cerca de 15m de comprimento e 4 a 5m de largura no sentido ONO. O tecto sobe bastante ficando a cerca de 30m da base do patamar. As paredes têm zonas distintas umas vezes de pedra lisa, outras com argila e outras ainda com formas de reconstrução parietais, sendo as mais espetaculares as que se observam em frente, um pouco a esquerda do patamar.

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Figura 9 - Vista do patamar (Foto: Pedro Robalo - GEM)
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Para baixo segue-se o prolongamento da descontinuidade em profundidade, mas para se perceber melhor explico separadamente.

Mesmo por debaixo do patamar temos uma pequena reentrância com blocos na base onde se nota uma pequena fenda que aparentemente liga a um poço. Um pouco mais à frente do patamar, no sentido NNO, existe um poço de 56m que acompanha a largura da diáclase até cerca de -20m e de seguida "afunila", não tendo mais de 0,5m de diâmetro na sua base coberta de vários calhaus.

De novo no patamar e no sentido ONO, descendo cerca de 10m em pêndulo, acedemos a um pequeno "parapeito" que é um misto de chão e blocos entalados, para dai descermos 9m e chegarmos a outro patamar.

No sentido S existe um poço de 31m com paredes com formas de reconstrução parietais, e em baixo vemos o chão de argila que por ressalto de 3m nos leva a um pequeno oco, terminando aí.

Já no sentido ONO temos um poço de 10m que termina em blocos (note-se que liga ao poço de 31m), e em frente segue uma fenda que, à medida que nela se avança, fecha e afunda, sendo por isso  humanamente impossível seguir por ali.
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No "parapeito" que é um misto de chão e blocos entalados, se seguirmos mais para ONO encontramos duas zonas destintas. No mesmo sentido por detrás de uma fenda na parede, temos um grande manto calcítico que nos leva à abertura no tecto, provavelmente de alguma abertura à superfície.

Já no sentido SO encontramos um novo poço, este com 32m. Notam-se vários patamares durante a sua descida, sendo o 1º o que mais probabilidades oferece, mas de dura desobstrução. A base do poço é de argila e cascalheira, seguindo-se um ressalto de 7m no sentido ESE, terminando num pequeno oco de 3x1m com fundo de vários calhaus, onde se encontra um poço de 2m cheio de blocos, sendo aí talvez a melhor probabilidade de continuação do algar quase a -100m.

Estes poços são o prolongamento da descontinuidade em profundidade, sendo estes zonas de infiltração.

Geologia:
O Algar do Laçarote tem um controlo estrutural por fraturas. As que parecem controlar os troços de maior desenvolvimento horizontal  têm direção grosseira WNW-ESE com inclinação subvertical. Outra família de fraturas de direção aproximada NE-SW e inclinação subvertical controla troços de menor desenvolvimento horizontal. As paredes da gruta apresentam caneluras de dissolução, típicas de “vadose shaft”.

As camadas regionalmente têm direção aproximada NW-SE e inclinação suave para Sul, porém localmente são subhorizontais. A gruta desenvolve-se em calcários da formação de Calcários Mícriticos da Serra de Aire, datada do Batoniano, Jurássico Médio. A gruta aparenta tratar-se de um “vadose shaft” de acordo com a definição de Baron, 2003, sendo estas grutas com desenvolvimento essencialmente vertical que conduzem a água do epicarso para as zonas mais profundas do carso.

​​​​​Presente:
Mais uma vez se prova que estes algares "clássicos", que todos conhecem, afinal têm sempre mais algo para dar. Tinha cerca de -20m, com um ponto de interrogação, agora chega aos -99m. Curioso também que num dos poços, após a desobstrução, o P32, verificámos a presença de morcegos na zona do 1º patamar.

Mas já no principio de Setembro com outros projetos a decorrer decidimos desequipar. A janela era curta e o algar vai entrar em fase de desaconselhamento ou interdição, segundo as normas da comissão cientifica da Federação Portuguesa de Espeleologia pelas quais nos regemos.

Vivemos momentos de grande entusiasmo, principalmente quando vislumbramos aquela descontinuidade aos -40m E havia razões para tal, não só pela beleza mas pelo desafio que foi, e também lembro que o objetivo deste projeto não é desobstruir tudo, mas sim fazer o levantamento das cavidades desta zona. E já está mais um!

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Figura 10a – Planta do Algar do Laçarote ( veja aqui em PDF )
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Figura 10b – Perfil desdobrado do Algar do Laçarote
( veja aqui em PDF )
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Figura 10c – Ficha de equipagem do Algar do Laçarote
( veja aqui em PDF )
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Fotos do Algar do Laçarote por Sérgio Carvalho (GEM), Pedro Robalo (GEM) e José Ribeiro (GEM)
  1. Title
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Algar do Cofelo
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Foi um dia curioso o que nos levou a este algar. Fazíamos ali perto prospeção, e para mostrar à malta a “mítica” Bajanca, chegámos primeiro ao Algar do Cofelo. Bom, a verdade é que estamos sempre a ouvir: já foi descido, é só o poço e termina!

A verdade não é muito diferente do que o que se diz, mas carecia de topografia. E assim foi, aproveitámos o par de horas que ainda nos restava e siga...

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Figura 11 - Algar do Cofelo  (Foto: Sérgio Carvalho - GEM) 
​​Descrição:
Encostado ao algar da Bajanca, este algar abre-se à superfície com boca de boas dimensões em forma quase “oval” com cerca de 5x3m. Segue-se um poço de 52m bastante bonito. De início as paredes estão cobertas de musgo e de algumas plantas que se penduram nos primeiros metros do poço.

À medida que vamos descendo a pedra calcária lisa começa a aparecer, a cerca de aproximadamente -30m. Uma área com formas de reconstrução dá a perceber uma zona de infiltração, trazendo escorrências vindas da superfície. A base é de blocos de várias dimensões e está carregada de troncos de madeira que em algumas zonas têm cogumelos.

No sentido SE existe uma pequena abertura que nos dá acesso a um pequeno ressalto de 2m, terminando num pequeno poço. Aí existe uma pequena abertura no tecto rica em concreções parietais que segue sempre verticalmente. A base tem muita pedra, terminando aqui o algar.

Geologia:
A gruta aparenta ter um controlo estrutural com uma fratura de direção N70E/subvertical. As camadas regionalmente têm direção aproximada NW-SE e inclinação suave para Sul, embora localmente possam ser consideradas subhorizontais.

A gruta desenvolve-se em calcários da formação de Calcários Bioclásticos do Codaçal, datada do Batoniano, do Jurássico Médio. A gruta aparenta tratar-se  de um “vadose shaft” de acordo com a definição de Baron, 2003, sendo estas grutas com desenvolvimento essencialmente vertical que conduzem a água do epicarso para as zonas mais profundas do carso.

Presente:
E assim foi, lá descemos o Algar do Cofelo. Com um poço espetacular e a base com aqueles cogumelos, lá ficou topografado e agora partilhado.

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Figura 12a – Planta do Algar do Cofelo ( veja aqui em PDF )
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Figura 12b – Perfil desdobrado do Algar do Cofelo ( veja aqui em PDF )
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Figura 12c – Ficha de equipagem do Algar do Cofelo ( veja aqui em PDF )
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Fotos do Algar do Cofelo por Sérgio Carvalho (GEM) e José Ribeiro (GEM)


Algar da Bajanca
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Foi num fim-de-semana neste verão “atípico” que nos propusemos visitar e topografar o Algar da Bajanca. Os carreiros que nos levam até ao algar estão “carregados” de mato muito alto, mas mesmo assim avançámos e continuámos, nada nos demoveu.

​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​Descrição:​​​​​​​​​​​
O algar da Bajanca abre-se à superfície com duas entradas, tendo a maior cerca de 21m de comprimento, com uma largura variável mas não tendo mais de 6m na zona mais larga.

A entrada mais estreita na zona mais a Oeste tem cerca de 4x3m. Aí segue-se um poço de 5m com a sua base de blocos de várias dimensões, seguindo-se vários ressaltos onde estamos por baixo da zona que separa as duas entradas. Segue-se um poço de 6m, se assim lhe podemos chamar, na zona em que praticamente estamos debaixo da entrada maior. Aqui estamos na base do algar.
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Figura 13 - Algar da Bajanca, a "boca" de maior dimensão, sendo a mais pequena o algar do Cofelo (Foto de drone: Vítor Amendoeira - GEM)
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A orientação na base é no sentido NO-SE, sendo também esta a orientação da sua inclinação. No início tem mais inclinação, suavizando à medida que avançamos. Tem blocos de várias dimensões sendo alguns bem grandes. De notar que na zona mais a NO a base tem cerca de 4m de largo, e quase no final da zona a SE chega aos 12m na sua zona mais larga.

Na zona mais a NO, vemos um pequeno recanto em que o tecto está a 3m de altura. Aqui o chão é de argila e vários calhaus. No tecto abrem-se duas pequenas chaminés, estando uma delas forrada de concreções parietais.

Observa-se na parede mais a SE, a cerca de 20m da base do poço, uma entrada com cerca de 2x1,5m que aparentemente não tem continuação.

​Geologia:

A gruta desenvolve-se segundo a Folha 27-A da Carta geológica de Portugal à escala 1/50000 na formação de Calcários bioclásticos do Codaçal datados do Batoniano (Jurássico Médio).

O controlo estrutural do desenvolvimento da gruta é intenso e feito por descontinuidades cujas famílias têm atitude N60-70W/Vertical, E-W/ Vertical e N20E/Vertical. O grosso da cavidade é controlado pelas duas primeiras famílias de descontinuidades referidas. A atitude local das camadas é subhorizontal.

A gruta foi alvo de fortes abatimentos, como se nota pelos abundantes blocos que atapetam o seu fundo. Os abatimentos acima referidos são os responsáveis pela grande boca que a gruta apresenta e que permite a entrada de matéria orgânica que cobre o fundo da gruta, disfarçando em parte a presença de abundantes blocos. O mecanismo de génese da gruta é desconhecido, embora a cavidade apresente semelhanças com os “vadose shafts” descritos por Baroñ, 2003, tal como um controlo estrutural por fraturas, elevada verticalidade e fundo com matéria orgânica. Porém a grande boca que tem a dimensão da secção do principal poço da gruta, não se enquadra neste tipo de grutas. Pode-se pôr a hipótese da boca ter-se alargado já numa fase mais tardia do desenvolvimento da gruta, tendo ela originalmente dimensões menores.

Presente:
Que dizer do Algar da Bajanca, qualquer espeleólogo comum pelo menos uma vez na vida já a visitou. Lembro-me há muitos anos em que tinha acabado a minha formação de nível II e termos visitado a Bajanca para treinarmos um pouco. Uaaauuuu!!!! Isto é tão grande, dizíamos nós uns para os outros num misto de medo e de alegria. Agora tudo parece mais pequeno, mas a beleza, essa continua lá.

Para a topografarmos com o Disto X310, equipámos durante o dia e esperámos pela noite para que o laser do Disto fosse percetível. Aquilo é que foi, era só bicharada a voar em direção aos nossos frontais. Não desistimos e continuámos ao que nos propusemos. Por vezes desligávamos os frontais e reparávamos nos pirilampos que piscavam aqui e ali.
A Bajanca à noite tem outra vida...

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Figura 14a – Planta do Algar da Bajanca ( veja aqui em PDF )
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Figura 14b – Perfil desdobrado do Algar da Bajanca ( veja aqui em PDF )
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Figura 14c – Ficha de equipagem do Algar da Bajanca ( veja aqui em PDF )
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Optámos também por fazer a topografia em planta com os algares da Bajanca e Cofelo, que aqui vos apresentamos:

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Figura 14d – Planta com os Algares da Bajanca e Cofelo ( veja aqui em PDF )
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Fotos do Algar da Bajanca por Sérgio Carvalho (GEM) e de drone por Vitor Amendoeira (GEM)


E assim foi, mais um pouco do nosso projeto foi feito, a obra avança e em bom ritmo. Aos poucos vamos chegando ao nosso objetivo.

Um abraço e até à próxima!
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