Algar da Autoestrada
28 de Fevereiro de 2026

Introduction and Location

O algar da Autoestrada encontra-se no Maciço Calcário Estremenho (MCE), concelho de Alcanena, freguesia de Minde, próximo da localidade de Covão do Coelho, a SW da Serra de Aire. As coordenadas geográficas (sistema de referência WGS84) da entrada da gruta são Latitude: 39.531421º, Longitude: -8.661871ºe Z aproximado: 357 metros.

A gruta é usada para exercícios de resgate por bombeiros e outros elementos do dispositivo de proteção civil.

Figura 1 - Localização do Algar da Autoestrada e de grutas próximas em foto de satélite. Arte final topografia do Algar da Esteveira (Vitor, L; João S., 1983), Arte final Algar da Lomba (Ribeiro J, 2023).

Description

A entrada faz-se por uma tampa metálica que dá acesso a um curto túnel artificial, que termina na cabeceira do primeiro poço, coberta com uma laje de betão armado. A gruta compreende um poço largo de entrada de diâmetro de secção de ordem de grandeza métrica, com 18m, a que se se segue uma sequência de poços mais estreitos com largura geralmente não superior a um metro, que no total somam mais cerca de 30m de profundidade à gruta. A gruta é relativamente concrecionada e apresenta ao longo do seu comprimento caneluras de dissolução, conforme definição de Baroñ, 2003.

Figura 2 - Aspeto de um do poços (Foto: Afonso Rodrigues - GEM)
Figura 3 - Topografia em suspensão (Foto: Afonso Rodrigues - GEM)
Figura 4 - Alimentação em passagem estreita.

Speleometry

Os dados espeleométricos são os seguintes: desenvolvimento total: 71,7m, desnível: -40,7m, desenvolvimento planar: 25,9m. A Figura 5 apresenta a topografia do algar. A laje de betão armado situado no teto do primeiro poço (P18) interferiu com o DistoX, pelo que as medições da zona inicial da gruta devem ser encaradas com precaução.

Figura 5 - Planta do Algar da Autoestrada (clique para ver em formato pdf).
Figura 6 - Perfil desdobrado do Algar da Autoestrada (clique para ver em formato pdf).

Geological Setting

De acordo com a folha 27-A da Carta Geológica de Portugal  à escala 1:50000 (Manupella et al), a gruta desenvolve-se na formação de Calcários Mícriticos da Serra de Aire, datada do andar Batoniano (da Época Jurássico Médio). As formações do Jurássico Médio são as formações cársicas por excelência do MCE, (Crispim, 1995), sendo onde se encontra o maior número de grutas e as de maior desenvolvimento. As camadas encontram-se deformadas pelo doma da Serra de Aire, perto da base da qual se situa a gruta em estudo.

Figura 7 - Localização do algar da Autoestrada e grutas próximas em extrato da folha 27-A da Carta Geológica de Portugal à escala 1/50000.

Structural Control

A gruta apresenta controlo estrutural por fraturas. Estas apresentam atitude aproximada N20-40E/Vertical, N40W/Vertical e E-W/Vertical.

Genesis and Evolution

A cavidade apresenta uma organização muito simples, a morfologia das passagens é alta e estreita, mantendo de um modo grosseiro a forma da descontinuidade ao longo da qual se desenvolveram. Estas características são definidas por (Bögli, 1980) como sendo de uma cavidade de origem vadosa primária. As caneluras que se desenvolvem ao longo dos poços são formadas pelo efeito corrosivo e erosivo da água que escorre, goteja (Baroñ, 2003), ou pela própria aspersão da água, ao longo das paredes de fraturas subverticais.

Com base nas observações acima referidas podemos afirmar que esta gruta terá sido formada em regime vadoso.

A gruta é classificada como um vadose shaft. Um vadose shaft pode ser traduzido para português como “algar de infiltração”. Estas grutas drenam a água que se acumula no epicarso, uma zona superficial do carso, caracterizado por uma maior intensidade da fracturação e da carsificação difusa. O epicarso apresenta, mercê das características antes referidas, uma maior permeabilidade, que a maior parte da zona vadosa subjacente, constituindo o suporte de um aquífero suspenso. A água armazenada no epicarso drena para descontinuidades que se encontram na base do epicarso. Estas descontinuidades conduzem a água para o interior do maciço em direção aos coletores que se encontram em profundidade. Ao longo das descontinuidades e enquanto a água se mantém agressiva ou vê a sua agressividade renovada por fenómenos como a corrosão por mistura, vai ocorrendo a corrosão do calcário que tem como consequência o alargamento das descontinuidades e a formação de poços.

Ao longo destas descontinuidades, que se encontram na base do epicarso, desenvolvem-se, deste modo, grutas compostas essencialmente por poços que conduzem a água até colectores no interior do maciço Os coletores podem não estar geneticamente relacionados e nem sequer serem contemporâneos das cavidades que se desenvolveram na base do epicarso Esta ligação entre as cavidades da base do epicarso e o sistema de condutas será feita, na maioria dos casos, através de zonas intransponíveis para o ser humano, tipicamente galerias que guiadas por uma camada ou por poços de especto meandriforme controlados por descontinuidades. Em muitos casos estas estruturas, que partem do fundo dos poços, estão cobertas por blocos resultantes de abatimentos no interior da cavidade.

Desenvolvimento da Cavidade

A evolução do algar é descrita de acordo com as fases de desenvolvimento de cavidades propostas por  (Baroñ, 2003). Estas fases encontram-se ilustradas na Figura 8.

Figura 8 - Fases da evolução de um vadose shaft segundo Baroñ, 2003.

1. Fase Embrionária

A água de precipitação dispersa no epicarso é concentrada ao longo das principais fraturas  e falhas, que atuam como vias de percolação para a zona vadosa abaixo. Esse fluxo concentrado alarga as fraturas, principalmente na base do epicarso. Como resultado, desenvolvem-se grutas embrionárias fechadas e canais de drenagem, ambos com secção transversal lenticular. Estas cavidades são geralmente muito estreitas e não têm ligação com a superfície. A corrosão por finas películas de água é provavelmente o principal agente espeleogenético responsável pelo seu alargamento. Podem ocorrer várias cavidades em diferentes pontos ao longo da mesma fratura, cada uma alimentada por diferentes fontes de água, e todas apresentando diferentes estágios de desenvolvimento de acordo com a quantidade de água disponível.

2. Fase de Poço Jovem

Mais tarde, o alargamento do poço torna-se mais rápido quando filmes e gotas de água conseguem cair verticalmente através da atmosfera rica em CO₂, adquirindo grande capacidade de corrosão. Elas atacam intensamente a rocha-mãe. Formam-se depressões nos locais onde as gotas caem. À medida que os poços se aprofundam, essas depressões alongam-se em sulcos ou caneluras de parede ao longo das faces inclinadas de fraturas subverticais (com inclinações de 70 a 90°). É nesta fase que a taxa de alargamento do poço é máxima. Os sulcos constituem as partes dominantes do volume do poço, podendo atingir comprimentos de dezenas de metros e diâmetros de vários decímetros. O perfil resultante do poço assemelha-se a uma sucessão de degraus em forma de triângulos retângulos, com as paredes verticais formadas pela ação da água gotejante e as paredes diagonais correspondendo à superfície da fratura. A drenagem ocorre para baixo ao longo da fratura, que continua a ser um canal embrionário inacessível.

A expansão da largura do poço é mínima quando a fratura é vertical. O mesmo ocorre ao longo de fraturas subhorizontais, onde a acumulação de água nas depressões impede o aprofundamento adicional causado pela água gotejante.

A ação de películas de água e o desabamento de blocos acrescentam-se ao efeito da água gotejante, mas têm influência relativamente pequena no alargamento do poço. Todos os processos formadores de poços são intensificados nas interseções entre fraturas.

3. Estágio de Abertura do Poço

Os poços também se desenvolvem para cima, devido à ação de películas de água e à corrosão por condensação. A corrosão por condensação é mais intensa no topo do poço, na base do epicarso, especialmente durante o inverno. A denudação superficial, a corrosão do subsolo, e os efeitos químicos e mecânicos das raízes das árvores combinam-se na abertura dos poços até à superfície. Primeiro, surge uma depressão incipiente no material do solo à superfície. Em seguida, o poço abre-se espontaneamente ou através de escavação humana.

4. Notas Adicionais Sobre o Desenvolvimento dos Poços

À medida que se alargam, poços e canais captam mais água suspensa proveniente do epicarso. O aprofundamento dos poços diminui gradualmente, à medida que menos água fica disponível para cada fratura individual. Começa então a formação de espeleotemas, e esses depósitos tendem a ocultar as formas de dissolução anteriores.

O diâmetro de um poço aberto aumenta devido à meteorização, à queda de blocos e à atividade biológica (por exemplo, musgos, líquenes e raízes de árvores). Detritos, incluindo solo e matéria orgânica em decomposição, acumulam-se abaixo da entrada e preenchem parcialmente o poço. A decomposição da matéria orgânica aumenta a concentração de CO₂ no ar da cavidade, especialmente junto ao fundo dos poços. A atmosfera rica em CO₂ pode aumentar a agressividade da água e o gotejamento e contribuir para o aprofundamento dos poços.

À medida que o material em queda se acumula no interior do poço e a denudação superficial reduz o terreno, acabam por permanecer apenas poços relíquia.

Conclusions

O algar da Autoestrada é um vadose shaft conforme definição de Baroñ, 2003, controlado por fraturas de atitude aproximada N20-40E/Vert, N40W/Vert e E-W/Vertical. A gruta é composta por fraturas alargadas por corrosão das águas que se infiltram a partir da base do epicarso, em profundidade em direção a coletores. O algar não os atinge pela fratura fechada em profundidade ou pelo consumo do dióxido de carbono presente na água.

Fieldwork Team

A equipa de  trabalho de campo foi constituída, por ordem alfabética, por:

Afonso Rodrigues, Duarte Antão, Fernando Batista, Filipe Castro e Marco Matias.

Referências Bibliográficas

Artigos e Livros

  • Baroñ, Ivo (2003) – Speleogenesis along subvertical joints: A model of plateau karst shaft development: A case study: the Dolný Vrch Plateau (Slovak Republic), Cave& Karst Science 29 (1), 2002, 5-12.
  • Bogli, Alfred, 1980, Karst Hydrology and Physical Speleology, Springer-Verlag, Berlin Heildelberg New York.
  • Crispim, J.A (1995) – Dinâmica Cársica e Implicações Ambientais nas Depressões de Alvados e Minde. Dissertação apresentada à Universidade de Lisboa para a obtenção do grau de Doutor em Geologia, especialidade de Geologia do Ambiente. Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, Departamento de Geologia. 394 pp.

Cartografia

  • Manupella, M. Telles Antunes, C.A. Costa Almeida, A.C. Azerêdo, B. Barbosa, J.L. Cardoso, J.A. Crispim, L.V. Duarte, M.H. Henriques, L.T. Martins, M.M. Ramalho, V.F. Santos, P. Terrinha. (2000) – Carta Geológica de Portugal — Vila Nova de Ourém, Folha 27-A, escala 1 :50000, e respetiva Notícia Explicativa, Instituto Geológico e Mineiro, Lisboa.

Topografias

  • Projeto Algar da Lomba.
  • Martins, Olímpio (1985), Algar da Esteveira, Algarocho- boletim interno da Sociedade Portuguesa de Espeleologia, nº8.