Artigo_Alecrineiros23a
Algares do Cabeço dos Alecrineiros - Parte XXIII

29 de Setembro de 2020

Ribeiro, José 1,2; Lopes, Samuel 1,4; Rodrigues, Paulo 1,2,3

  1. Grupo de Espeleologia e Montanhismo, Rua Maria Veleda, 6, 7ª Esq, 2650-186, Amadora, Portugal
  2. Núcleo dos Amigos das Lapas Grutas e Algares 
  3. Comissão Científica da Federação Portuguesa de Espeleologia
  4. Wind-CAM - Centro de Atividades de Montanha, Rua Eduardo Mondelane, lj44, 2835-116 Baixa da Banheira

 

Introdução

Amigos, estamos de novo do terreno e a dar continuidade ao nosso projeto. É certo que o Covid-19 travou praticamente toda a nossa dinâmica mas aos poucos recomeçámos novamente a voltar a este cantinho que tanto gostamos. Aproveitando a zona que tínhamos explorado para a última publicação, ali junto ao algar dos Arames, subimos um monte que nos chamou a atenção e descobrimos 3 pequenos algares. De regresso aos carros encontrámo-nos com o Senhor António Ferraria, conterrâneo ali da Moita do Açor, que nos conhece já há algum tempo pois tem-nos visto muitas vezes por ali. Conversa puxa conversa e lá nos levou a alguns algares por onde passava descalço em miúdo para ir à escola em São Bento. Muito interessante, estas histórias que fomos ouvindo:- Ali, acolá onde estão aqueles silvados há dois, mas deitavam tanto fumo que pareciam que lá tinham o diabo…- Este aqui descíamos com uma corda e uma vela, mas só um pouco pois acolá era muito fundo e só tínhamos 7 anos, éramos novos… Já para não falarmos do Senhor "Católico", conterrâneo bem conhecido na zona, que nos indicou mais uns algares e outras tantas historias. Mas lá chegaremos, por agora apresentamos cinco algares: Algar do Rachão, Algar da Rachela, Algar da Rachinha, Algar do Penedo do Pico I e Algar do Penedo do Pico II.


Figura 1 - Localização dos algares, tendo como referencia a localidade de São Bento.

Algar do Rachão

Figura 2 - Entrada do Algar do Rachão (Foto: José Ventura - GEM)

Em prospeção num final de tarde encontrámos este algar e verificámos que tinha sido obstruído, não sendo estranho o facto por ali ser um local de pasto e passagem de gado.
 
Descrição:Após desobstrução a boca do algar tem sensivelmente 2m de comprimento e na sua zona mais larga meio metro. Ao centro um grande bloco. A abertura é no sentido SO-NE.
Segue-se um poço de 7m de paredes lisas com algumas formas de reconstrução. A base com muita cascalheira e blocos tem inclinação no sentido NE, terminando no final dessa inclinação o algar.
 
Geologia:
A gruta aparenta ter um controlo estrutural por uma famílias de fraturas de direção grosseira NE–SW, e com inclinação subvertical. As camadas regionalmente têm direção aproximadamente NW–SE e inclinação suave para Sul, localmente são subhorizontais. A gruta desenvolve-se em calcários da formação de Calcários Bioclásticos do Codaçal, do Batoniano do Jurássico Médio.
A gruta aparenta tratar-se de um “vadose shaft” de acordo com a definição de Baron, 2003, sendo estas grutas com desenvolvimento essencialmente vertical que conduzem a água do epicarso para as zonas mais profundas do carso.Presente:Ficámos bastante entusiasmados com este algar. Desobstruímos a boca mas depressa reparámos que a base do poço também tinha sido totalmente obstruída. Paciência, é mais um que fica registado e depois de recolhermos os dados voltámos a tapar a entrada.


Figura 3a - Planta do Algar do Rachão

Figura 3b - Perfil desdobrado do Algar do Rachão

Figura 3c - Ficha de equipagem do Algar do Rachão
Figura 3c - Ficha de equipagem do Algar do Rachão

Fotos do Algar do Rachão por José Ventura (GEM) e Joana de Capitani (GEM)

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Figura 2 - Entrada do Algar do Rachão (Foto: José Ventura - GEM)

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Algar da Rachela
O dia avançou mas ainda tínhamos muito tempo. Mãos à obra que aqui há qualquer coisa... vai de desobstruir.

Figura 4 - Entrada do Algar da Rachela
(Foto: Joana de Capitani - GEM)

Descrição:No meio de um caos de blocos reparámos numa pequena fissura. Após desobstrução a boca do algar tem agora com aproximadamente 1m x 1m, seguindo-se um ressalto de 3m bem mais apertado que segue no sentido NNE, tendo sido também desobstruído. No final do ressalto temos um poço de 7m. Aí acompanha-nos na descida uma grande coluna que chega praticamente à base do poço.
O algar termina numa sala que se desenvolve no sentido NNE com cerca de 2 metros, alargando um pouco. Tem algumas prateleiras e muitas formas de reconstrução, algumas de bom volume tornando a sala muito bonita. O chão é de cascalheira e alguma argila. Nota-se no sentido NO-SE duas pequenas fendas no chão que estão colmatadas com calcite, não se sentindo qualquer circulação de ar, terminando aí o algar.
Geologia:A gruta aparenta ter um controlo estrutural por uma família de  fraturas de direção grosseira NE–SW,  com inclinação subvertical. As camadas regionalmente têm direção aproximadamente NW–SE e inclinação suave para Sul, localmente são subhorizontais. A gruta desenvolve-se em calcários da formação de Calcários Bioclásticos do Codaçal, do Batoniano do Jurássico Médio.
A gruta aparenta tratar-se de um “vadose shaft” de acordo com a definição de Baron, 2003, sendo estas grutas com desenvolvimento essencialmente vertical que conduzem a água do epicarso para as zonas mais profundas do carso.Presente:Curiosamente quem reparou inicialmente naquele possível algar foi o Rui Pina, mas estávamos tão entusiasmados com a descoberta do Rachão que na altura nem ligámos muito. Mais tarde, enquanto parte da equipa estava a trabalhar noutro algar, a restante malta investiu neste. E valeu bem a pena pois as formações são magnificas e é mais um que fica registado e agora partilhado.


Figura 5a - Planta do Algar da Rachela

Figura 5b - Perfil desdobrado do Algar da Rachela

Figura 5c - Ficha de equipagem do Algar da Rachela

Fotos do Algar da Rachela por José Ventura (GEM)

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Figura 4 - Entrada do Algar da Rachela (Foto: Joana de Capitani - GEM)

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Algar da Rachinha

Ora bem, enquanto parte da equipa estava no algar da Rachela em desobstrução, a restante malta estava a desobstruir a Rachinha, já antes identificada. Com entusiasmo lá a fomos "alargando".


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Figura 6 - Entrada do Algar da Rachinha antes da desobstrução (Foto: José Ventura - GEM)

Figura 7 - Entrada do Algar da Rachinha após desobstrução (Foto: José Ventura - GEM)

Descrição:O pequeno algar abre-se à superfície e após desobstrução ficou com uma pequena abertura de cerca de 0,5m x 0,3m na sua zona mais larga e com um bloco no centro. Segue-se um poço de 7m onde temos inicialmente um pequeno patamar em caos de blocos que se ultrapassa pela lateral. O poço desenvolve-se inicialmente no sentido E-O mas rapidamente vira no sentido N. Uma rampa de argila acompanha a descida, a qual apresenta algumas formas de reconstrução, nomeadamente muitas estalactites, e rapidamente estamos na base do poço com muita argila. A Norte vislumbramos um pequeno poço, se assim lhe podemos chamar, com cerca de 0,5m de diâmetro, que alarga na base mas está completamente colmatado de argila e as paredes forradas de calcite, terminando aí o pequeno algar.Geologia:
A gruta aparenta ter um controlo estrutural por uma famílias de fraturas de direção grosseira NE–SW,  e com inclinação subvertical. As camadas regionalmente têm direção aproximadamente NW–SE e inclinação suave para Sul, localmente são subhorizontais. A gruta desenvolve-se em calcários da formação de Calcários Bioclásticos do Codaçal, do Batoniano do Jurássico Médio. A gruta aparenta tratar-se de um “vadose shaft” de acordo com a definição de Baron, 2003, sendo estas grutas com desenvolvimento essencialmente vertical que conduzem a água do epicarso para as zonas mais profundas do carso.Presente:
Este deu muita "luta", deu esperança quando se detetou o pequeno poço na sua base, mas como muitos outros ficou-se por ali. Paciência, coisas de espeleólogos. Fica mais um registado e voltámos a tapá-lo, depois da recolha de dados.


Figura 8a - Planta do Algar da Rachinha

Figura 8b - Perfil desdobrado do Algar da Rachinha

Figura 8c - Ficha de equipagem do Algar da Rachinha

Fotos do Algar da Rachinha por José Ventura (GEM)

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Algar do Penedo do Pico I

Figura 9 - O Sr António a indicar-nos mais um algar (Foto: Márcia Cruz - GEM)

Como combinado numa saída anterior, lá estava o Sr. António Ferraria, conterrâneo dali do "paraíso dos algares", à nossa espera. Numa tarde de calor foi-nos então mostrar uns algares que ele conhece desde muito novo. Fomos por ali fora a acompanhar o Sr António, que com os suas 84 primaveras deu-nos um "baile" de como se anda no campo. Aqui e ali, ao mesmo tempo que nos indicava os algares, foi-nos contando as suas histórias que remontam à sua infância.
Uns dias depois fomos então explorar o algar, numa zona bastante promissora.

Figura 10 - Entrada do Algar do Penedo do Pico I (Foto: Márcia Cruz - GEM)

Descrição:O algar tem 3 aberturas à superfície, uma delas mais a O que tem cerca 3m x 2m mas está coberta com uma bela figueira em que as raízes ocupam praticamente todo o espaço, apesar de ser um destrepe de 3m, pelo que decidimos não perturbar.
A abertura que se encontra no centro é pequena, instável e de difícil acesso, pelo que descemos pela abertura mais a E que tem aproximadamente 2m de comprimento por 0,5m de largura. Segue-se um poço de 11m com dois patamares bem pronunciados à medida que descemos mas sem qualquer continuidade. A base é um caos de blocos com inclinação no sentido ENE e no final a zona fica plana com argila, com algumas ossadas e uma chaminé que na sua zona mais elevada comunica com uma pequena janela em zona bem visível. Já no sentido OSO verificam-se algumas reentrâncias sem qualquer continuidade.
No topo da inclinação deste caos de blocos, um ressalto de 2m leva-nos a um pequeno desenvolvimento no sentido N e que tem uma pequena continuidade em baixo terminando logo aí. No topo do ressalto é bem visível a abertura com a figueira a cobrir a entrada. O chão é um misto de blocos e argila e segue no sentido N, terminando ai o algar com uma pequena chaminé.
Verificámos que o algar tem bastante vida, algumas salamandras e vários tipos de insetos.Geologia:
A gruta aparenta ter um controlo estrutural por  duas famílias de fraturas de direção grosseira N–S e E-W,  com inclinação subvertical. As camadas regionalmente têm direção aproximadamente NW–SE e inclinação suave para Sul, localmente são subhorizontais. A gruta desenvolve-se segundo Manuppela et al 2000, na formação de Calcários de Chão das Pias datada do andar Bajociano Inferior do Jurássico Médio.  A gruta aparenta tratar-se de um “vadose shaft” de acordo com a definição de Baron, 2003, sendo estas grutas com desenvolvimento essencialmente vertical que conduzem a água do epicarso para as zonas mais profundas do carso.Presente:
Agradável surpresa este algar. Apesar de pequeno é um local bem bonito com o sol a entrar pelo poço dando um aspeto muito bonito ao salão, se assim lhe podemos chamar.


Figura 11a - Planta do Algar do Penedo do Pico I
Figura 11a - Planta do Algar do Penedo do Pico I

Figura 11b - Perfil desdobrado do Algar do Penedo do Pico I

Figura 11c – Ficha de equipagem do Algar do Penedo do Pico I

Fotos do Algar do Penedo do Pico I por Márcia Cruz (GEM)

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Figura 10 - Entrada do Algar do Penedo do Pico I (Foto: Márcia Cruz - GEM)

Figura 9 - O Sr António a indicar-nos mais um algar (Foto: Márcia Cruz - GEM)


Fotos do Algar do Penedo do Pico I por José Ribeiro (GEM)

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Algar do Penedo do Pico II

Figura 12 - Entrada do Algar do Penedo do Pico II
(Foto: Rui Pina - GEM)

Este estava mesmo ali ao lado, foi equipar e explorar…
Descrição:
A boca do algar tem cerca de 2m de comprimento e no seu ponto mais largo 1m. Segue-se um poço de 11m tendo no inicio um pequeno patamar e as paredes são forradas de formas de reconstrução e musgo, dando-lhe um aspeto muito bonito. A base é de muitos blocos, ossadas e lixo que se nota ser de outros tempos. No sentido S vemos um pequeno recanto em destrepe onde se observa uma pequena fenda, mas estando entulhada com ossadas e muitos calhaus. Já no sentido N avança-se um pouco, com inclinação no sentido de progressão, e após destrepe termina ai o algar. Nota-se também uma pequena abertura mas completamente bloqueada com muitos calhaus e ossadas.
Verificámos a presença de salamandras.
Geologia:A gruta aparenta ter um controlo estrutural por uma família de fraturas de direção grosseira NNE-SSW, com inclinação subvertical. As camadas regionalmente têm direção aproximadamente NW–SE e inclinação suave para Sul, localmente são subhorizontais. A gruta desenvolve-se segundo Manuppela et al 2000, na formação de Calcários de Chão das Pias datada do andar Bajociano Inferior do Jurássico Médio.
A gruta aparenta tratar-se de um “vadose shaft” de acordo com a definição de Baron, 2003, sendo que grutas com desenvolvimento essencialmente vertical que conduzem a água do epicarso para as zonas mais profundas do carso.
Presente:Algar interessante apesar de pequeno.  Nota-se que foi alvo de "entulhamento", se assim lhe podemos chamar. Provavelmente tem continuação se removermos todos aqueles blocos, mas o objetivo do projeto é sobretudo a partilha de conhecimento e para já ficamos por aqui.


Figura 13a - Planta do Algar do Penedo do Pico II

Figura 13b - Perfil desdobrado do Algar do Penedo do Pico II

Figura 13c - Ficha de equipagem do Algar do Penedo do Pico II

Fotos do Algar do Penedo do Pico II por José Ribeiro (GEM)

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Fotos do Algar do Penedo do Pico II por Rui Pina (GEM)

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Figura 12 - Entrada do Algar do Penedo do Pico II (Foto: Rui Pina - GEM)

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E já está mais uma publicação do nosso trabalho. Agora vamos estar centrados na campanha da Contenda mas voltaremos em breve, pois a zona é muito promissora.
Texto: José RibeiroGeologia: Paulo RodriguesEdição: Vitor Toucinho