Contribuição ao levantamento de cavidades na Serra dos Candeeiros
6 de Janeiro de 2026

Rodrigues, Afonso – texto e topografia

Rodrigues, Paulo 1,2,3 – revisão científica
 
  1. Grupo de Espeleologia e Montanhismo, Rua General Pereira de Eça, nº30, 2380-075 Alcanena
  2. Núcleo dos Amigos das Lapas Grutas e Algares 
  3. Comissão Científica da Federação Portuguesa de Espeleologia,Estrada Calhariz de Benfica, 187, 1500-124 Lisboa 
Email de correspondência: afonsobm5@gmail.com

Geological Setting

As  zonas em estudo encontram-se na Serra dos Candeeiros, formada por  um anticlinal de direção aproximada NE-SW, que deformou sobretudo terrenos do Jurássico Médio e Superior.

A maior parte das grutas abaixo mencionadas abrem-se na proximidade do Vértice Geodésico da Serra dos Candeeiros, em calcários dos andares Caloviano, Batoniano e Bajociano, época do Jurássico Médio (Folha 26-D da Carta Geológica de Portugal à escala 1:50000). Trata-se de uma zona relativamente homogénea (apenas com uma formação) e sem acidentes geológicos notáveis, a oeste da localidade de Alcobertas (fig. 1). A Folha 27-A da Carta Geológica de Portugal à escala 1:50000, mais recente que a 26-D, representa porém um conjunto de falhas que atravessam a Serra dos Candeeiros, ora paralelas ora perpendiculares à direção da Serra,  que  provavelmente se prolongam para Sul em direção à área em estudo. As camadas parecem estar localmente subhorizontais, provavelmente por se estar na charneira  do anticlinal da Serra dos Candeeiros.

Já o Algar Canhão dos Cães, Algar Antigo, Gruta da Pedreira 1 e ponto 12 localizam-se no Cabeço Gordo, uma zona mais setentrional da Serra dos Candeeiros. As cavidades desenvolvem-se na formação “Camadas do Montejunto”, datada do andar Kimeridgiano, Jurássico Superior (folha 26-B da Carta Geológica de Portugal 1:50000). A zona é atravessada por duas falhas cartografas, uma com direção NW-SE e outra grosseiramente N-S (fig. 2).

Figura 1 - Localização das cavidades do Alto dos Candeeiros em extrato da Folha a 26-D da Carta Geológica de Portugal 1:50000.
Figura 2 - Localização das cavidades do Cabeço Gordo em extrato da Folha 26-B da Carta Geológica de Portugal 1:50000. O ponto “Algar Canhão dos Cães” corresponde ao Algar do Cabeço da Pedreira.

 

Algar do Sai-Daí

Descrição: A cavidade é um algar de infiltração que parece abrir-se ao longo de uma pequena fratura de atitude N10ºE/Vertical, desenvolvendo-se depois principalmente por outras diaclases de direções próximas a E-W e N-S, todas verticais (fig. 3). Tem uma sala lateral concrecionada, incluindo uma pérola (fig. 7), que se alcança ou com um pequeno pêndulo, ou com um destrepe a partir do patamar debaixo da entrada. O ponto mais fundo, em rampa de pedras, tem dois pequenos meandros sem continuidade e sem corrente de ar. Ao longo do poço veem-se caneluras de dissolução, conforme Baroñ (2003).

Acesso: Alto dos Candeeiros, perto da estrada.

Notas: Foi equipado um corrimão para verificar a parte mais distal (relativamente à entrada) da zona superior da diaclase, e viu-se que não tem continuidade.

Figura 3 - Topografia do Algar do Sai-Daí (clique para ver em formato pdf).
Figura 4 - Aspeto da entrada.
Figura 5 – Pormenor de estalactites.
Figura 6 – Aspeto geral do interior.
Figura 7 – Pormenor de pérola.

 

Algar do Marco Geodésico

Descrição: Trata-se de uma gruta de pouca extensão que desce gradualmente, em curva. Em certas zonas do teto veem-se superfícies arredondadas (fig. 9), podendo ser uma indicação de antigo regime freático, ou alternativamente resultado de corrosão por condensação. A rampa de blocos termina num colmatamento sem corrente de ar notável. A cavidade é estruturalmente controlada por duas fraturas E-W/Vertical e por uma N60ºW/Vertical (fig. 10).

Acesso: No alto dos Candeeiros, debaixo de um pinheiro-manso.

Figura 8 – Aspeto da entrada.
Figura 9 - Zona de teto arredondada.
Figura 10 – Topografia do Algar do Marco Geodésico.

 

Algar do Rochio Largo

Descrição: Provável vadose shaft controlado por uma fratura de direção grosseiramente E-W, tendo duas entradas, uma das quais demasiado estreita e intransponível. As paredes a partir de cerca dois metros de profundidade estão todas cobertas de concreção. Da boca, desce-se até se atingir um fundo quase plano de blocos; daí, um pequeno destrepe leva a um patamar mais baixo. Deste ponto parte um pequeno meandro estreito e sem continuidade, e outra passagem estreita que dá acesso a um segundo ressalto geneticamente equivalente ao poço inicial, atingindo novo fundo de sedimento fino e blocos. Veem-se as ossadas de um animal pequeno.

Acesso: Alto dos Candeeiros, na proximidade da antena.

Notas: Tem dois blocos a tapar a entrada. Um é removível, o outro foi fixado à parede antes de se entrar.

Figura 11 – Topografia do Algar do Rochio Largo (clique para ver em formato pdf).
Figura 12 - Aspeto da entrada, tapada por blocos.
Figura 13 – Aspeto do interior, visto do topo.

 

Gruta dos Sapinhos

Descrição: A gruta é uma pequena sala com entrada vertical e fundo de blocos. Tinha no interior uma garrafa de UCAL já com uns bons 40 anos. Há uma passagem estreita que porta a outro espaço de pequena dimensão, com fundo de lama.

Acesso: Alto dos Candeeiros, muito perto da estrada.

Figura 14 – Topografia da Gruta dos Sapinhos (clique para ver em formato pdf).
Figura 15 – Aspeto da entrada.
Figura 16 – Aspeto da sala, concrecionada.

 

Algar da Perdiz

Sinonímia: Algar do Caminho, Sumidouro de Chãos.

Descrição: Trata-se de um pequeno vadose shaft de largura média, estando o fundo coberto de blocos e matéria orgânica. Apresenta paredes com marcas de corrosão intensa (fig. 18) e caneluras de dissolução.

Acesso: Na vertente entre as Alcobertas e o alto dos Candeeiros, abrindo-se à beira da estrada de terra, com mato por cima.

Figura 17 – Aspeto da entrada.
Figura 18 – Aspeto das paredes, junto do fundo.
Figura 19 – Topografia do Algar da Perdiz (clique para ver em formato pdf).

 

Ponto 15

Coordenadas: 39.43695º, -8.91774º (WGS84).

Descrição: A cavidade tratava-se inicialmente de um pequeno orifício no solo (fig. 22). Foi feita a desobstrução à superfície (Luís Meira Paulo, Maria Miguel Gomes e Afonso Rodrigues em 2025-06-14, fig. 20), possibilitando a entrada: chega-se a um fundo passados cerca 4m e o canto do poço, colmatado por pedras, deita boa corrente de ar, mas é um espaço muito apertado e difícil de trabalhar. Vale a pena fazer uma reinvestida, condicionada a espeleólogos de reduzida dimensão.

Acesso: Na vertente entre as Alcobertas e o alto dos Candeeiros, abrindo-se à beira da estrada de terra, com mato por cima.

Figura 20 - Luis Meira a operar mata-vacas.
Figura 20 - Luis Meira a operar mata-vacas.
Figura 21 - Aspeto da entrada após desobstrução.
Figura 21 - Aspeto da entrada após desobstrução.
Figura 22 – Descoberta do orifício inicial.
Figura 22 – Descoberta do orifício inicial.

Algar do Cabeço da Pedreira

Descrição: Gruta vertical com dois poços de largura considerável. A entrada abre-se num lapiás de fissuras profundas (fig. 24). O primeiro poço tem controlo por uma fratura N40°W/Vertical, e o resto da cavidade forma-se ao longo de duas fraturas N40°E/Vertical. Tem génese vadosa, mas parece intercetar alguns pequenos vazios freáticos ao início. No interior do mais evidente, parecem existir pequenas vagas de erosão (em forma de “flutes”). As superfícies do algar são todas arredondadas por ação de condensação, e tem a estratificação sub-horizontal bem visível. No fim do último vertical acede-se a uma zona em canhão de altura e volume consideráveis, com rampa de blocos descendente e instável. No extremo há três abatimentos enormes a meio do espaço, e parece que o antigo vazamento está colmatado pelos maciços e por blocos soltos. A fratura que controla a sala cria também um pequeno meandro elevado; é possível aceder a um pequeno nível superior, trepando um dos blocos em oposição. Há uma quantidade inquietante de ossadas de cães espalhadas pelo espaço.

Acesso: A meia vertente de um cabeço a norte do Cabeço Gordo. Chega-se lá por um caminho florestal que sai da estrada principal; com jipe pode entrar-se pelo caminho, estacionando onde termina, a 39.51220º, -8.89021º  (WGS84), senão tem de se deixar o carro na estrada e faz-se tudo a pé. Passando o ponto acima indicado segue-se por caminhos de caçadores até à boca.

Figura 23a - Perfil do Algar do Cabeço da Pedreira (clique para ver em formato pdf).
Figura 23b - Planta do Algar do Cabeço da Pedreira (clique para ver em formato pdf).
Figura 24 – Equipagem do poço de entrada.
Figura 25 – Aspeto do segundo ressalto, visto de cima.

 

Algar Antigo

Coordenadas: 39.50055º, -8.88714º (WGS84)

Descrição: Pequeno poço “cego” com fundo colmatado. Desobstrução de Luís Meira Paulo, Maria Miguel Gomes e Afonso Rodrigues em 2025-06-14. Abre-se na proximidade do Algar da Figueira do Cabeço Gordo, uma cavidade com acesso condicionado devido à presença de gralhas-de-bico-vermelho nidificantes.

Acesso: Cabeço Gordo, convém ter jipe para chegar à zona.

Figura 26 - Aspeto da entrada como foi encontrada.
Figura 27 - Aspeto da entrada após desobstrução.

 

Gruta da Pedreira 1 (destruída)

Coordenadas: 39.50611º, -8.88840º (WGS84)

Descrição: Tratava-se de uma pequena cavidade constante no cadastro do GEM, que se abria numa pedreira entretanto desativada e preenchida com inertes (fig. 29). A cavidade é portanto inacessível.

Figura 28 - Imagem de satélite da pedreira antes do preenchimento.
Figura 29 - Imagem de satélite da pedreira após preenchimento, sendo o ponto amarelo a localização da gruta.

 

Ponto 12

Coordenadas: 39.50050º, -8.88708º (WGS84)

Descrição: Imediatamente ao lado do Algar Antigo. É um pequeno vazio tapado por bloco grande, tem uns 2-3 metros de fundura mas parece atingir argila, tal como o primeiro (fig. 30).

 

Ponto 16

Coordenadas: 39.43920º, -8.91788º (WGS84)

Descrição: Pequena entrada no solo, com pouco interesse (fig. 31).

Figura 30 - Aspeto do ponto 12, por desobstruir.
Figura 31 - Aspeto do ponto 16.

 

Bibliography

  • Baroñ, Ivo (2003) – Speleogenesis along subvertical joints: A model of plateau karst shaft development: A case study: the Dolný Vrch Plateau (Slovak Republic), Cave& Karst Science 29 (1), 2002, 5-12.
  • Manupella, M. Telles Antunes, C.A. Costa Almeida, A.C. Azerêdo, B. Barbosa, J.L. Cardoso, J.A. Crispim, L.V. Duarte, M.H. Henriques, L.T. Martins, M.M. Ramalho, V.F. Santos, P. Terrinha. (2000) – Carta Geológica de Portugal — Vila Nova de Ourém, Folha 27-A, escala 1 :50000, e respetiva Notícia Explicativa, Instituto Geológico e Mineiro, Lisboa.
  • G. Zbyszewski e J. Camarate França  (1961) Folha 26 B Alcobaça, Carta Geológica de Portugal à escala 1:50000 e respetiva Notícia Explicativa (1963), Serviços Geológicos de Portugal, Lisboa.
  • G. Zbyszewski e R. de Matos (1959) Folha 26-D Caldas da Rainha da Carta Geológica de Portugal à escala 1:50000 e respetiva Notícia Explicativa (1960), Serviços Geológicos de Portugal, Lisboa.