- Grupo de Espeleologia e Montanhismo, Rua General Pereira de Eça, nº30, 2380-075 Alcanena
- Núcleo dos Amigos das Lapas Grutas e Algares
- Comissão Científica da Federação Portuguesa de Espeleologia, Estrada Calhariz de Benfica, 187, 1500-124 Lisboa
Resumo
Os Algares da Moita das Porcas I, II e da Pedreira do Batista são cavidades que se desenvolveram no carso do Planalto de São Mamede, parte de uma unidade do Maciço Calcário Estremenho Portugal. As cavidades são classificadas como vadose shafts que se desenvolveram a partir da base do epicarso, em zona vadosa, numa estrutura monoclinal, em calcários do Jurássico Médio, ao longo de descontinuidades subverticais.
Palavras chave: Algar da Moita das Porcas I, Algar da Moita das Porcas II, Algar da Pedreira do Batista, Planalto de São Mamede, espeleogénese, regime vadoso, zona epicársica, vadose shaft, Maciço Calcário Estremenho.
Introdução
Os Algares da Moitas das Porcas I, da Moita das Porcas II e da Pedreira do Batista ficam situados no Planalto de São Mamede, a Norte da localidade de Mira de Aire em Portugal. O Planalto de São Mamede faz parte de uma das três unidades geomorfológicas do Maciço Calcário Estremenho, doravante designado de MCE. As bocas dos algares abrem-se junto à extremidade Sul do Planalto de São Mamede, numa zona aplanada que pode ser incluída no nível de Chão das Pias definido por Fernandes Martins, 1949, relativamente perto do bordo norte do Polje de Minde e nas imediações do importante sistema de Moinhos Velhos-Pena-Contenda (Figura 1).
Enquadramento Geológico
As cavidades desenvolvem-se de acordo com a Folha 27-A – Vila Nova de Ourém da Carta Geológica de Portugal à escala 1/50000, na formação de Calcários mícriticos da Serra de Aire (Figura 2). Esta formação está datada do Batoniano (andar do Jurássico médio); a litologia dominante, segundo Manuppella et al (2000) são os calcários mícríticos, e a espessura total desta formação, de acordo com a mesma fonte, é da ordem dos 300-400m. Esta formação está inserida na chamada formação cársica do Jurássico Médio definida por Crispim (1995).
Em termos estruturais, os terrenos da zona em estudo encontram-se inseridos no flanco Sul de um anticlinal de grande amplitude (Manuppella et al 2000), constituindo localmente esse flanco, segundo a Folha 27-A da Carta Geológica de Portugal à escala 1/5000, um monoclinal com atitude local de aproximadamente NW-SE/ 5-10º SE. Em termos práticos, em afloramentos intra e extra cavidades, a formação apresenta-se subhorizontal. A zona em estudo é atravessada por uma rede de diaclases de orientação aproximadamente NW-SE e NE-SW segundo Crispim (1995). Em relação a falhas, de acordo com a Folha 27-A-Vila Nova de Ourém da Carta Geológica de Portugal à escala 1/50000, os acidentes mais próximos têm direção NW-SE e NNE-SSW.
Enquadramento Hidrogeológico
A A hidrogeologia do MCE continua a ser, atualmente, pouco conhecida. Cada uma das unidades geomorfológicas possui um número muito limitado de nascentes permanentes para onde escoa as suas águas subterrâneas. De acordo com Costa Almeida et al (2000), a unidade onde se situam as grutas alvo deste estudo, (Planalto de São Mamede e Serra de Aire) drena as suas águas para as nascentes permanentes do Rio Almonda (a SE) e do Rio Liz (a NNW). O Polje de Minde, situado relativamente perto dos algares, tem um papel fundamental na circulação da água subterrânea.
Algar da Moita das Porcas I
Resenha Histórica
A Sociedade Portuguesa de Espeleologia (SPE) desenvolveu trabalhos no Algar da Moita das Porcas I pelo menos nos anos 80-90 por Paulo Caetano da Noiva e Mário Simões (podendo ter havido mais participantes). Em 2004 e 2005 a Sociedade Portuguesa de Espeleologia (SPE) voltou a realizar trabalhos neste algar. Durante esses trabalhos procedeu-se à exploração da cavidade e realização de uma topografia da mesma. Na década de 2010 ocorreram visitas e trabalhos de reequipagem da gruta, envolvendo o Grupo de Espeleologia e Montanhismo (GEM) e outras associações. Em 2024 foram feitas várias saídas à cavidade pelo GEM, com intuito de produzir uma topografia.
Descrição da Cavidade
A entrada na cavidade é relativamente estreita, dando acesso um poço de largura métrica. Da sua base, segue-se por um estreitamento para outro ressalto que, por uma rampa coberta por sedimento, emboca num poço direto de 28m. No fundo do poço, é possível descer mais um pouco para NE, mas a sala termina num colmatamento de blocos; antes para SW, há um caos de blocos com aproximadamente dois níveis. O de baixo dá acesso a uma série de pequenas passagens, e nelas veem-se grandes romboedros de calcite. O nível de cima conduz a um poço paralelo logo a NW através de uma janela; está coberto de concreção branca e depois estreita, tornando-se inacessível.
Do caos de blocos, subindo, para SE há outra fratura onde se monta um pequeno corrimão para um ressalto de 6m, fazendo-se depois outro corrimão mais abaixo numa diaclase perpendicular até chegar ao espaço do último poço, que geneticamente é uma outra grande fratura alargada de altura considerável. Daqui faz-se outro pequeno ressalto em oposição e equipa-se a descida do poço mais profundo em amarrações naturais. Há mais dois pequenos poços paralelos, um intercomunica com o principal, tratando-se na verdade da mesma fratura onde se montou o corrimão; o outro fica no alinhamento do ressalto e tem entrada obstruída. Descendo ao poço mais profundo chega-se a um fundo coberto de blocos e continua-se por mais alguns degraus estreitos, instáveis e lamacentos, de onde na década de 2000 já se tirou pedra. Aqui veem-se pequenos cristais laminares e aciculares, muito bonitos e frágeis ao toque.
Antes, do topo do poço, onde se equipa a descida, acede-se a uma parte lateral que consiste noutra fratura alargada, profusamente concrecionada. Mais um ressalto e entra-se numa sala onde estão os espeleotemas mais desenvolvidos do algar; depois de uma última vertical, equipada numa amarração natural, chega-se a um espaço inferior, intersectado por uma pequena fratura demasiado estreita para explorar. Nesta zona há pequenos lagos temporários com cristalização associada.
Espeleometria
Desenvolvimento Total: 155m
Desenvolvimento Planimétrico: 69m
Desnível: -70m
Alguns apontamentos de geologia
O Algar da Moita das Porcas I é formado por uma série de poços, que se desenvolvem ao longo, sobretudo, de uma direção entre N20ºE a N40ºE. A cavidade apresenta também algumas zonas que se desenvolvem ao longo da direção N20-40ºW e E-W. As áreas da gruta que se desenvolveram ao longo destas últimas direções têm dimensões menores que as de direção N20-40ºE, são menos frequentes e servem sobretudo como ligação entre as zonas de direção N20-40ºE.
A profundidade máxima dos poços é geralmente da ordem das poucas dezenas de metros, a sua secção transversal máxima, em zonas onde não se registaram abatimentos, é da ordem de 2-3 m de diâmetro. As ligações entre os vários poços são muitas vezes feitas através de passagens de secção reduzida, situadas junto ao fundo dos poços ou nas paredes dos mesmos. A profundidade, dimensão da secção transversal e a morfologia dos vários poços é relativamente variável.
Os poços apresentam nas suas paredes caneluras, como as descritas por Baron (2003) em grutas do Planalto de Dolný Vrch, a secção transversal destas caneluras atinge vários decímetros e o seu comprimento é da ordem de grandeza da profundidade dos poços. O fundo dos poços encontra-se quase sempre coberto por blocos, resultantes de abatimentos do teto, e argila, com exceção de um poço que termina numa fenda impenetrável. O teto dos poços é, no geral, plano, coincidindo com superfícies de estratificação subhorizontais. Ao longo do fundo da cavidade ou encaixados entre as paredes dos poços são encontrados blocos de dimensão decimétrica a métrica. A parte da cavidade de maior extensão lateral é a base do poço de entrada (fundo do P28), onde existe um caos de blocos. Muitos destes blocos são de dimensão métrica e são constituídos sobretudo por calcário, mas também por concreções que cobriram os blocos após o seu abatimento.
A base dos poços apresenta-se coberto de sedimentos de natureza detrítica (incluindo terra rossa), litoquímica e biológica (apenas nos poços mais próximos da superfície). Verifica-se a presença de raízes até cerca de 40m de profundidade. Em termos de concreções, a cavidade apresenta sobretudo mantos estalagmíticos que se desenvolveram nas paredes da cavidade, algumas cortinas, estalagmites, estalactites e colunas em quantidade reduzida.
Algar da Moita das Porcas II
Resenha Histórica
A Sociedade Portuguesa de Espeleologia realizou na primeira metade da década de 2000 trabalhos de topografia, desobstrução e inclusive uma escalada (na chaminé referida na descrição da gruta). Em 2024 foram conduzidas várias atividades pelo GEM, com objetivo de exploração e topografia.
Descrição da Cavidade
A boca da gruta abre-se num eucaliptal junto a um caminho de pé posto, que desce para Sul, do estradão que liga a estrada de Vale Barreiras a Mira de Aire.
A boca, com cerca de 1m de largura, dá acesso a um poço com aproximadamente 20m de profundidade. O teto do mesmo é relativamente instável, com blocos soltos. O poço apresenta muitas raízes e blocos suspensos a meio, resultantes de abatimentos ao longo de uma camada de argila. As paredes do poço apresentam sinais de um estado mais avançado de degradação, exigindo algum cuidado na progressão. A porção mais a SE está coberta de moonmilk seco. A base do poço é composta por uma rampa coberta de calhaus, algum lixo, e ainda um tronco de eucalipto encaixado no poço. A partir da base do poço de entrada (P18) tem-se acesso a dois ressaltos. Um deles conduz à cabeceira do poço mais profundo da gruta, com uma largura de vários metros e uma profundidade de 32m. O fundo, coberto de blocos, concentra algum CO2, tendo no enfiamento de uma das fraturas um pequeno nicho que serve de abrigo, esta continuação estreita; não se notando corrente de ar. Nele está um pequeno esqueleto de cobra.
Partindo do patamar acima (base do poço de entrada), é possível também aceder a um pequeno ressalto de cerca de 5m, que comunica por duas janelas com o P32. A partir desta rampa, tem-se acesso ao ramo SW da cavidade, que desce por mais uns tantos ressaltos da mesma ordem de grandeza, terminando numa sala fortemente concrecionada. É a zona de maior beleza litológica da cavidade, tendo uma chaminé impressionante de cerca de 20m de altura. Da base da sala é ainda possível destrepar para dois pequenos vazios abaixo, cobertos de argila, não sendo mais que a base de um caos de blocos, em cima do qual se formou a sala concrecionada. É também possível trepar por uma diaclase que acede a um pequeno poço paralelo, com fundo de blocos e sem continuação aparente. O algar apresenta caneluras de dissolução em várias zonas, e uma atmosfera algo saturada.
Espeleometria
Desenvolvimento Total: 83,9m
Desenvolvimento Planimétrico: 26,0m
Desnível: -49,0m
Alguns apontamentos de geologia
A gruta pode ser classificada com um vadose shaft de acordo com a definição de Baroñ, 2003. O algar apresenta caneluras de dissolução verticais ao longo das paredes dos poços, controlo estrutural por fraturas, uma boca relativamente pequena e neste caso em particular abundante matéria orgânica. O controlo estrutural do desenvolvimento da gruta é feito por descontinuidades subverticais de direção aproximada N-S a N20ºE, E-W, N60ºW e N60ºE. Os blocos que atapetam o fundo dos poços resultam, em grande parte, do abatimento ao longo de superfícies de estratificação subhorizontais.
Algar da Pedreira do Batista
Resenha Histórica
A resenha aqui apresentada é baseada em grande parte na informação fornecida por Paulo Almeida, que participou na exploração mais antiga de que tivemos conhecimento, realizada pela SPE.
“Tenho noção de a exploração inicial ter sido há bastante tempo. Abandonada por o algar estar entulhado na base do poço de entrada (…). Algures nos anos 90, o Crispim falou para batermos todos os algares da região, pois estaria o algar da Pedreira do Baptista na vertical de uma galeria dos Moinhos Velhos. Foi quando fui lá, já não me lembro com quem, vi os cantinhos todos e nenhum tinha passagem. Havia um buraco na parede, numa zona de acesso muito difícil que me despertou a atenção e a vontade de explorar, mas não tinha no momento equipamento para isso.“
Noutra atividade posterior: ”levei o equipamento que tinha planeado e lá fui eu e mais alguém, desceu o outro primeiro e depois desci eu, parei à altura que calculei, ele começou a agitar a corda, qual badalo do sino até que consegui chegar à parede e agarrar-me com dois dedos, todo esticado, qual número de circo. Com a outra mão consegui colocar uma das minhas unhas de escalada, à qual consegui unir o ponto central do arnês e ficar agarrado num ponto super estável, se eu não respirasse. Caso corresse mal a parede oposta esperava a minha chegada. Pendurado em tão seguro ponto consegui elevar-me num estribo e colocar um entalador, entre entaladores e pontes de rocha lá fui progredindo e instalei uma corda para acesso. Fui progredindo por entre placas de rocha que me encaminhavam na direção da superfície, quando estava perto da superfície e após ter olhado para todos os cantinhos, havia uma placa com um espaço por baixo, esgueirei-me por aí e tinha parede pela frente, mas com uma ligeira passagem acima desta, dessa passagem um vento fresco e quando espreitei tinha a descida que vocês conhecem, instalei uma corda e fui até à passagem estreita dos vossos pesadelos. Depois disso vocês já conhecem o resto da história.” Posteriormente, na primeira metade da década de 2000, a Sociedade Portuguesa de Espeleologia realizou trabalhos de desobstrução.
Descrição da Cavidade
A abertura do algar à superfície é relativamente estreita e fica no bordo de uma pequena depressão, havendo no alinhamento da sua fratura genética um poço com uma boca maior, com um bloco suspenso a tapá-la; este poço desce cerca de 7m com paredes cobertas de musgo até atingir um colmatamento, coberto de solo.
Atravessando a entrada da gruta, passa-se para um poço de largura de ordem métrica. Descendo toda a sua extensão, chega-se a um fundo com blocos, onde se veem nas paredes caneluras com scallops de escorrência; antes, a meio da vertical, há uma janela que acede ao poço maior (P25), que forma uma sala de volume impressionante. A parede a Oeste está coberta de concreções lindíssimas e de boa dimensão, sendo que o lado oposto, onde existem caneluras de dimensão apreciável nas paredes, parece ainda ter corrosão ativa. O P25 comunica em vários pontos com o primeiro poço de entrada por uma diaclase alargada. A base do salão tem um monte de material de dejeção no centro, e o fundo coberto de blocos desintegrados pela queda; há ainda uma escavação e uma pá num sítio pouco promissor, com uma ossada. Vê-se a estratificação subhorizontal com ligeiro pendor para sul, e um dos blocos do teto tem um pequeno canal marcado. O poço “cego” junto da entrada do algar fica precisamente no alinhamento do monte de material de dejeção que se vê no fundo do espaço, sugerindo possível ligação passada.
Espeleometria
Desenvolvimento Total: 100m
Desenvolvimento Planimétrico: 31m
Desnível: -42m
Alguns apontamentos de geologia
A gruta pode ser classificada como um vadose shaft de acordo com a definição de Baroñ, 2003. O algar apresenta caneluras verticais de dissolução ao longo das paredes dos poços, controlo estrutural por fraturas e uma boca relativamente pequena. O controlo estrutural do desenvolvimento da gruta é feito por descontinuidades subverticais de direção aproximada N20ºW, N40ºW, N60-70ºW, N40ºE e N60ºE. Os blocos que atapetam o fundo do P25 resultam pelo menos parcialmente do despejo de blocos e resíduos, a partir da superfície, e não só de abatimentos do teto.
Espeleogénese
Regime de Formação das Cavidades
As cavidades são controladas estruturalmente por várias famílias de descontinuidades, apresentando uma organização muito simples sem ramificações, sendo a morfologia das passagens (nos casos em que não se verificou uma destruição da estrutura original, por abatimentos) alta e estreita, mantendo de um modo grosseiro a forma da descontinuidade ao longo da qual se desenvolveram, geralmente subvertical. Todas estas características são definidas por Bögli (1980) como sendo de cavidades de origem vadosa primária. As caneluras que se desenvolvem ao longo dos poços são formadas, segundo Baroñ (2003) pelo efeito corrosivo e erosivo da água que escorre, goteja, ou segundo Lauritzen e Lundberg (2000), pela própria aspersão da água ao longo das paredes de fraturas subverticais (o que é, aliás, típico do regime vadoso, segundo os mesmos autores). Com base nas observações acima referidas podemos afirmar que estas grutas terão sido formadas em regime exclusivamente vadoso.
O desenvolvimento das cavidades sempre ao longo de descontinuidades subverticais, a existência de vários poços que cresceram ao longo das mesmas descontinuidades, ligados entre si por passagens estreitas, possivelmente com uma evolução separada antes da ligação, o regime vadoso de desenvolvimento, e a terminação dos vários poços mais profundos das grutas em passagens intransponíveis ou em caos de blocos apontam para que estas grutas se encontrem instaladas numa zona epicársica.
O epicarso serve como um sistema de condução da água desde a superfície até a sistemas de condutas no interior do maciço, que podem inclusive não estar geneticamente relacionados com as cavidades do epicarso. Esta ligação será feita através de drenos, que na sua maioria, são de dimensões intransponíveis e que muitas vezes se encontram cobertos por blocos resultantes de abatimentos.
Desenvolvimento das Cavidades
A morfologia destes algares e o seu enquadramento apresenta muitas semelhanças aos dos “Karst Shafts” descritos por Baron (2003). O desenvolvimento das cavidades em estudo é descrito, de forma simplificada, de acordo com as fases propostas por Bögli (1980).
Fase Inicial (a e b da Fig. 22). Os algares ter-se-ão começado a desenvolver a partir da infiltração de água de precipitação através de descontinuidades pré-existentes na base do epicarso, que recebem água do mesmo.
Fase Jovem (c da Fig. 22). Devido à corrosão provocada pelas águas de infiltração dá-se um aumento da abertura das descontinuidades passando estas a ter uma dimensão que as permite considerar como grutas. Temos de colocar a hipótese dos vários poços que constituem cada um dos algares terem tido nesta fase e na anterior um desenvolvimento em separado, isto explicaria o facto das grutas serem constituídas por uma série de poços com desenvolvimento paralelo e ligados de uma forma geral por passagens estreitas. Baron (2003) admite que ao longo de uma mesma fratura se podem desenvolver várias cavidades separadas.
Ter-se-á seguido uma fase de maturidade (d da Fig. 22) caracterizada pelo alargamento das cavidades devido sobretudo à corrosão provocada pela água de infiltração. Terá sido nesta fase (segundo o modelo de Baron (2003)) que se deu a abertura das bocas das cavidades à superfície. A fase de maturidade prolongou-se até ao início da ocorrência de fenómenos de abatimento.
Segue-se a fase tardia do desenvolvimento das cavidades (e da Fig. 22). A fase tardia caracteriza-se pela paragem ou diminuição do desenvolvimento das cavidades por processos corrosivos e por ser tipicamente a altura de excelência (Bögli, 1980), e pela ocorrência de abatimentos no interior. Os abatimentos ocorreram de preferência segundo superfícies de estratificação ao longo dos tetos. Isto explica o facto dos tetos de grande parte dos poços serem planos. Os abatimentos formaram os blocos que preenchem parte das cavidades e que preenchem o fundo da maioria dos poços. Os blocos abatidos juntamente com as concreções alteraram a morfologia original das grutas. O concrecionamento ocorreu antes e após os episódios de abatimento, pois encontram-se também concreções abatidas e muitos dos blocos que preenchem as cavidades apresentam-se cobertos por novas concreções. Os blocos e calhaus rochosos, bem como os sedimentos litoquímicos podem ser atribuídos essencialmente a esta fase.
Conclusão
Os algares em estudo (Algar da Moita das Porcas I, Algar da Moita das Porcas II e Algar da Pedreira do Batista) são cavidades com desenvolvimento essencialmente vertical, com profundidades na ordem de grandeza das várias dezenas de metros, que se desenvolveram, em regime vadoso, na base da zona epicársica do Planalto de São Mamede, numa estrutura monoclinal, em calcários do Jurássico Médio.
As grutas apresentam as características e um desenvolvimento típico dos vadose shaft descritos por Baroñ (2023), nomeadamente caneluras de dissolução ao longo dos poços, bocas relativamente estreitas, desenvolvimento vertical, e poços controlados por fraturas subverticais, que coalescem uns com os outros. Atualmente as grutas encontram-se num estado tardio de desenvolvimento, apesar de se continuar a verificar a infiltração de água a partir da superfície.
Bibliografia
- Baroñ, Ivo (2003) – Speleogenesis along subvertical joints: A model of plateau karst shaft development: A case study: the Dolný Vrch Plateau (Slovak Republic), Cave& Karst Science 29 (1), 2002, 5-12.
- Bogli, Alfred, 1980, Karst Hidrology and Physical Speleology, Springer-Verlag, Berlin Heidelberg New York.
- Crispim, J. A. (1995) – Dinâmica Cársica e Implicações Ambientais nas Depressões de Aluados e Minde. Dissertação apresentada à Universidade de Lisboa para a obtenção do grau de Doutor em Geologia especialidade de Geologia do Ambiente. Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa Departamento de Geologia. 394 pp.
- G.; Manuppella, et al. (2000) – Carta Geológica de Portugal — Vila Nova de Ourém, folha 27-A, escala 1 :50000, e respectiva Notícia Explicativa, Instituto Geológico e Mineiro, Lisboa.
- Carta Militar de Portugal à escala 1/25000, folha 318 – Mira de Aire (Porto de Mós) Edição 3 –2004, Instituto Geográfico do Exército.
